A Aviação de Ontem e Hoje.

Na aviação de maneira geral, é comum ver pessoas reclamando. Vocês podem me dizer que isto existe em toda e qualquer profissão, sempre há aquele sugador de energia que reclama do cafézinho da repartição, da nova decisão do chefe ou do mais novo chefe da área. Sempre tem aquele discurso de que “no meu tempo era diferente”. Bom, na aviação realmente era. Mas este tempo também já era.

Alguns destes doces “reclamões” começaram a voar em 88, ano que nasci. Quando eu estava berrando nos braços do obstetra, eles já colocavam aquela máquina gigantesca para correr… e voar. Eu lhes pergunto, o que era diferente? Eles respondem: Tudo. Os clientes, os chefes, a escala, os pernoites, os hotéis, as viagens.

Mas indicam os pontos negativos também. O rigor era muito maior e também os egos. Havia uma doença chamada “comandantite”, os infectados quase não tocavam o chão. Eram os chamados “Vacas Sagradas”, intocáveis pelo seu tempo de casa e também pelo temperamento arredio. Era tradição que o comandante autorizasse (ou não) a entrada dos demais tripulantes na aeronave, na condução para os hotéis e assinassem primeiro a ficha de cadastro para receber a chave do apartamento antes de todo mundo. Ai de você se não perguntasse “Posso entrar, Comandante?”.

Parece absurdo, mas isso ainda existe. E se você for um pouco conservador em alguns aspectos, como eu, vai perceber que não é uma bobagem. É uma demonstração de hierarquia, uma prova da autoridade do Comandante sim. Porque essa hierarquia é necessária e sua autoridade deve ser incontestada. Afinal de contas, quando eu estava engatinhando, o cabra já fazia alguns voozinhos transoceânicos. E na tomada de decisão, experiência é algo muito relevante. Que tal um pouco de respeito?

As passagens custavam mais caro, então viajar de avião era um evento. Os homens tiravam do armário seus melhores ternos, relógios e da carteira, suas melhores notas. As aeromoças eram contratadas para enfeitar, sobretudo, este evento. As esposas, algumas iam, algumas ficavam. Isto também dependia do poder aquisitivo das suas famílias. O serviço de bordo era completo, com talheres de prata e algumas opções de bebidas alcóolicas. Música e ambiente e bons perfumes e as aeromoças de enfeite.

Hoje, as passagens aéreas e rodoviárias se equipararam. Quando se demorava três dias para ir do Nordeste ao Norte, as estradas eram precárias, o que tornava a viagem ainda mais cansativa. Hoje cerca de 4 horas é o suficiente. É bem verdade que as escalas e conexões aumentaram, como uma rede gigantesca de ligação pelo Brasil…E as viagens continuam cansativas.

Para o tripulante, doze horas de descanso. É o suficiente para você comer, dormir e conhecer a cidade. Ah, e cuidar da sua vida (pagar contas, fazer unha, estudar, ligar para os pais, cuidar do relacionamento). Antigamente, dois dias, um dia inteiro e a vida ficava lá embaixo para depois, sem um plano B. Aquilo era a vida, aquele era o objetivo alcançado e não apenas um degrau para o sucesso, que parece cada vez mais longe, quanto mais longe você chega.

Avaliando prós e contras, penso que não há saldo devedor. Estamos vivendo esta aviação que é legal, que é bacana e que também tem seu “cafézinho ruim de repartição”.  Acho que ficamos para trás quando nós, que não vivemos aquela aviação, reclamamos da nossa realidade sem lutar por uma aviação melhor. Muitas vezes, os sugadores de energia têm cerca de 25 anos, o que vimos da vida? Fica então meu apelo aos que estão entrando na aviação: Saibam onde estão pisando e entrem limpos, livres e em paz com este passado glorioso. É hora de construir um futuro.

Lídia Dourado

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Sobre Lídia Dourado

Uma Comissária apaixonada pelo que faz.

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17 comments on “A Aviação de Ontem e Hoje.

  1. Olá Lídia!!!

    Gostaria de parabenizar você pelo seu blog, e dizer que sempre o acompanho, você por sinal é uma excelente pessoa como excelente profissional também.Parabéns!
    Eu sei que você deve receber toda hora dúvidas sobre a carreira de comissária e tal, e eu na verdade tenho uma também, mas no que se diz respeito ao idioma.Fico grata se puder me ajudar.Eu gostaria de saber, se é válido fazer um curso de inglês voltado para area da aviação ou se necessariamente só com o inglês “normal” já dá pra conseguir passar em alguma seleção?
    Parabéns novamente pelo maravilhoso blog.
    Obrigada, Jaque

    • Oi Jaque!

      Que bom que você gosta do blog. Seja bem vinda sempre.
      Quanto a sua dúvida, se você tiver um inglês bacana para conversação, já é um ponto positivo para você. O Inglês técnico é mais indicado para os pilotos, que além do inglês normal, deve saber as fraseologias e nomeclaturas específicas da sua área.
      Lembre-se, o inglês é um grande diferencial e vc deve buscar evoluir sempre. Acho que fica a dica pra mim também! HAHAHAHAHAHA!
      Um beijão.

      • Muito obrigada pela dica Lídia!!! E como vc disse, temos que evoluir sempre! Super adorei sua dica, vc como sempre, atenciosa e prestativa!obrigada!!! beijosss!!!

  2. Para aqueles que pretendem pesquisar a história da aviação nacional e mundial desde 1898 com o primeiro voo em balão, por Santos Dumont em Paris, o Centro de Memória TAM é um departamento estratégico de pesquisas e estudos desta trajetória que instiga a imaginação.

  3. olá lídia,meu nome é scarlet tenho 15 anos e sonho é ser comissària da azul.você poderia me da algumas dicas sobre esta empresa e a aviação

    • Scarlet, continue acompanhando nosso blog! Daqui você pode tirar várias dicas para desenvolver seu objetivo.
      Grande beijo.

  4. Gostei muito desse novo post. Parabéns, como sempre arrasando!

  5. Nice post. I went through the post I found it very informative and useful. Thanks for sharing.

  6. Lídia, acho fantástico essa coisa de hierarquia na aviação, deixa tudo mais organizado e sério. Tudo bem que existia comandante que nem pisava no chão, mas isso dava um ar de glamour que hoje nem vemos mais, a não ser nos filmes antigos. Sabemos que hoje em dia não existe essa de ”aeromoças de enfeite”, existe sim, muito trabalho e muita dedicação por parte das pessoas que já estão atuando ou daquelas que sonham um dia entrar.
    Como sempre Lídia, muito bom o post… Amei 🙂

  7. Muito bom, Lídia! Minha mãe foi comissária da Transbrasil por 10 anos, teve que parar de voar em 1992, porque rompeu o tímpano a bordo (pois é.) Hoje eu faço o curso para ser comissária de voo. Sempre quis seguir essa profissão e ela sempre me incentivou, ainda que ressaltando algumas dificuldades. Em compensação, certos amigos dela (alguns que continuam voando!) sempre me desestimularam alegando que hoje tudo mudou, acabaram as vantagens de ser comissário e um monte de bla bla bla. Não da pra entender, né? Porque mesmo esses que reclamam, continuam preferindo se cansar de hotel legal, vista panorâmica dos céus, viagens, entre outros, do que “busão” e “metrozão” apertados e fedidos na hora do rush, né?

  8. Primeira vez que visito o blog e lendo me senti um tripulante e imaginando como devia ser o passado da aviação… Parabéns belas palavras, sempre voltarei para ler novos contos! Afinal quando chegar minha oportunidade de voar, desejo estar limpo, livre e em paz. Bons voos

  9. Lindo post como sempre Lídia, e suas últimas frases disseram tudo “Fica então meu apelo aos que estão entrando na aviação: Saibam onde estão pisando e entrem limpos, livres e em paz com este passado glorioso. É hora de construir um futuro.”
    É assim que tenho vontade entrar.
    Beeijos!

    • Tai, tenho certeza que vc está ciente das dificuldades e das delícias de ser tripulante!
      Sucesso pra ti nessa jornada!

      =*

      • Muito obrigado!! 😀
        beeijo

  10. “As aeromoças eram contratadas para enfeitar, sobretudo, este evento”. Acho que essa visão ainda deixa vestígios em muita gente, como você deve perceber no dia-a-dia. Mas creio que isso, também, está mudando.

    ps: post em homenagem a Santos Dummont? 🙂

    • Deveria ser uma homenagem a ele, né Julinha? Mas na verdade, nem pensei nisso. Ando num ócio criativo absurdo, mas há algum tempo quero falar deste assunto.
      Sim, esta visão deixa vestígios. Um deles é o velho fetiche com a aeromoça. O que, de todo, não é um grande problema! Hahahahaha… O importante é que saibam que em primeiro lugar vem a SEGURANÇA do vôo e que somos treinadas (e muito bem) para isso.
      Este é o foco!
      =*
      Saudades de vc.

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