Hoje Serviremos: Intercâmbio Cultural

No conforto da minha casa, com a TV ligada enquanto bisbilhoto o Youtube, ouço uma notícia que talvez não me chamasse à atenção semana passada: “Ataques aéreos matam dezenas de pessoas na Síria”, dizia. As imagens mostravam uma cidade sob escombros, pessoas correndo para se proteger da chuva de fogo e blocos de cimento. Meu olhar parou num ponto fixo e senti uma profunda tristeza.

Síria Ontem e Hoje.
Síria Ontem e Hoje.

Esta semana, durante um voo para Boa Vista, em Roraima, fui informada de que havia uma família de estrangeiros a bordo que não se comunicava nem em inglês, nem em português. Eram árabes. Portanto, eu só precisaria apontar para as opções de bebidas que eles escolheriam. Este contato superficial é corriqueiro e compreensível, afinal atendemos mais de 100 passageiros por voo, às vezes num curto período. Eu ainda prefiro buscar aspectos em comum com o passageiro para uma comunicação um pouco mais personalizada, o que confere mais “humanidade” ao atendimento.

Essa empatia, ela deve ser natural. Foi o que aconteceu, assim que iniciei o speech de boas vindas com um formal “Bom dia”, percebi que o homem que agia como o Pai respondeu um sonoro “Bom dia” também. Opa, temos uma comunicação aqui, pensei.  Por eles que, supostamente, não falam português, logo nutri uma simpatia, pois muitos dos que falam nossa língua materna ignoram a polidez essencial de um cumprimento. O que, honestamente, me deixa muito chateada.

A partir de então nos pusemos a conversar, o Pai, a Mãe (que usava um véu sobre os cabelos e por este detalhe revelava a religião da família, muçulmana) e o casal de filhos adolescentes.  A conversa se dava ora em português, ora em inglês, que a Filha entendia um pouco. Algumas vezes eles se esforçavam para falar outras palavras, como “obrigado”, “boa tarde” e o destino final “Boa Vista”. Gentilmente me ensinaram a dizer Shukran, Márhaba e Sabáh hel khéir, que são cumprimentos em árabe, este último ainda impronunciável para mim.

A história deles era a seguinte: Estavam saindo da Síria por causa da guerra. Vieram tentar a vida no Brasil, onde os negócios pareciam ser promissores, entretanto o custo de vida em São Paulo estava caro e então decidiram morar na Venezuela, fronteira de Roraima, para onde estavam indo naquele momento.

Através de um desenho, perguntei para a Filha se conhecia alguma coisa sobre dança do ventre. Ela me respondeu que sabia dançar, mais um ponto em comum que descobrimos com alegria! Em seguida, com o celular em modo avião, puseram-se a me mostrar fotos onde apareciam sorrindo, debaixo de Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o que revelou respeito e admiração à religião predominante no Brasil, a Cristã, e divergente da deles. Como retribuição, mostrei uma foto de uma praia em Salvador e, como boa baiana que sou, logo os convidei para uma temporada quando pudessem. Quando desembarcaram, deixaram uma impressão de família feliz. Apesar de todo o problema por que passaram, fizeram questão de falar da Síria com muito carinho e ressaltaram sua beleza antes da guerra. Deixaram também uma mensagem. A de imenso respeito às culturas diferentes.

Amazonas Julho de 2015
Amazonas Julho de 2015
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Sobre Lídia Dourado

Uma Comissária apaixonada pelo que faz.

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