Pânico a bordo – Como lidar com esta situação?

Eu estava no meio do corredor acomodando alguma bagagem quando vi um tumulto na parte da frente da aeronave, sendo rapidamente contornado pelo comissário que me substituía no meu posto. De repente, uma mulher entra no banheiro e uma moça acompanhada de duas crianças segue em minha direção em busca de acomodação. “Posso ajudá-la a encontrar seu assento?” E a moça começa a me explicar uma situação que envolvia pânico, portão de embarque, a mãe das crianças, banheiro e atestados… Frases desconexas que entendi, depois, dentro de um contexto que deveria receber mais atenção das pessoas que lidam com pessoas: A depressão.

As crianças pareciam calmas, sentaram no assento que constava no cartão de embarque e me pediram fones de ouvido, para tranquilamente assistirem a programação da TV a bordo. Quando perguntei ao meu colega o que estava acontecendo, ele me explicou resumidamente que a mãe das crianças tinha síndrome do pânico, havia embarcado muito nervosa e agora estava no banheiro, se recompondo.

Assumindo a situação a partir de então, logo que ela saiu do banheiro, providenciei a troca de lugar dela e das crianças para assentos mais próximos de mim. Seu andar era receoso, suas mãos tremiam ainda e agora ela estava encolhida, com óculos escuros e tendo espasmos de choro.

Lembrei então de uma pessoa que conheci na minha adolescência que tinha síndrome do pânico. O corpo respondia da mesma forma, retraindo-se. Imaginei como o avião, que é um ambiente hostil para a maioria das pessoas, pode ser uma terrível bomba relógio para aqueles que tem restrições com ambientes fechados, multidões e situações que fujam das suas rotinas.

Assim que decolou, sentei ao seu lado. Não tenho medo de tocar nas pessoas, se percebo que aquilo não vai ser interpretado de maneira equivocada, mesmo ciente de que estou no meu ambiente de trabalho. Puxei sua mão e segurei com força. Sorri e tentei mostrar que estava tudo bem, mas ela continuava encolhida em seus ombros e soluçando. A filha mais nova me olhou e disse, com uma maturidade que não combinava com a sua estatura, tampouco com a sua idade: “Ela tem essas crises sempre, já estamos acostumados”.

“Não vou derrubar o avião”, disse ela. Aquela frase me surpreendeu, pois aquilo nem sequer passou pela minha cabeça. “As pessoas estão me olhando como se eu fosse abrir a porta, mas eu não vou. Eu não faria isso… Depressão é uma doença, mas não sou uma assassina”. Neste momento, percebi que ela estava com vergonha pelo ocorrido no portão de embarque, onde ela se apresentou para embarque preferencial devido elevado nível de stress e foi orientada a entrar na fila normal. A passageira chegou a dizer a agente de aeroporto que tinha síndrome do pânico e mostrou o atestado médico, mas, segundo ela, teria sido ignorada, gerando uma crise nervosa que perdurava até aquele momento.
“Ninguém está aqui para te julgar. Você tem seus medos, eu tenho os meus e estamos todos no mesmo barco. Nesse caso, no mesmo avião!” Sorri tentando descontrair um pouco. Expliquei que o desconhecimento da depressão como doença é algo corriqueiro, mas que eu compreendia seu estado e que tinha a função de reverter todo o mal estar gerado no portão de embarque. Perguntei se ela queria um suco de laranja, questionei se o medicamento prescrito já havia sido ingerido e levantei para dar início ao serviço de bordo.

No desembarque, recebi um forte abraço. Não havia mais aquela mulher aprisionada em seu próprio corpo, mas a mãe de duas crianças que estava viajando para a casa dos pais. Não havia mais pânico, apenas olhos inchados de uma situação que fugiu do seu controle. É como uma dor de cabeça incontrolável, que quando medicada e tratada pode ser amenizada. Mas jamais ignorada. Todos nós temos nossos níveis de tristeza diária e isso não faz de nós propriamente depressivos, mas se não ficarmos atentos é possível sim, embarcar numa viagem solitária.

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2 comments on “Pânico a bordo – Como lidar com esta situação?

  1. gostei bastante do blog, traz informações interessantes!

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