Seleção natural

Foto tirada na época das seleções.
Foto tirada na época das seleções.

De repente me vi de frente para uma estrutura física absurda. Era um prédio gigantesco, numa arquitetura elaborada e moderna, vermelho. Ele ficava próximo do aeroporto, eu podia ouvir o som do meu sonho distante. As moças que chegavam eram lindas, absurdamente lindas, altas e loiras. O tempo parou enquanto eu olhava a movimentação delas. Algumas se conheciam e pareciam confiantes, sabiam o que estavam fazendo ali. Eu não. Ouvi distante o som de uma voz conhecida chamando meu nome, uma voz calorosa, grossa, firme e gentil. Era meu pai, ainda parado com o táxi também em choque, em frente ao prédio monumental. Ele conta até hoje que teve muita vontade de chorar quando me viu tão indefesa e insegura diante desta nova etapa da vida. E ele não podia me carregar no colo, me levar pra casa e me dizer que tudo passou. Mas homem, pai, herói (sei lá a regra) não chora: Ele apoia. “Filha, vá com Deus.” Fui.

Estes foram os primeiros momentos da minha primeira seleção numa companhia aérea. Aterrorizante? Uh! Eu só tinha 18. Eu só queria voar. Mas não tinha me dado conta do mundo que me esperava. Obviamente, não passei. Evidentemente não estava preparada e lhes digo mais, cliché ou não, Deus escreve certo em aramaico! Você não entende o que Ele tá fazendo, tirando de você aquilo que você considera melhor naquele momento. Anos depois, os fatos traduzem Suas intenções.

Minha segunda seleção foi na mesma Companhia, um ano depois. Caminhávamos eu e minha mãe pelo Largo do Arouche, onde costumávamos nos hospedar em São Paulo, no hotel San Raphael. Parei numa Lan House (na época não existia Smartphone) para checar se o e-mail com o resultado do processo seletivo já estava lá. É sempre um mini infarto quando você vê o nome da Companhia na caixa de entrada. E outro mini infarto quando você lê a resposta: Você NÃO passou no processo seletivo. Minha mãe me amparava enquanto eu chorava compulsivamente. Mas que diabos! Porque eles não me querem? O que tenho de errado?  Você pode imaginar a dor de uma mãe com questionamentos e expressões de completa decepção, quando vem da sua filha caçula. Tenho certeza que não teria chegado lá sem o apoio dos meus pais.

Na terceira vez fui confiante, sério, de verdade. Fui com passos firmes, sapatos confortáveis, cabeça erguida e um gostinho de vitória na boca. Desta vez, não falharia e mudaria de cor, seria a comissária perfeita. Passei em todas as etapas: Dinâmica de grupo, entrevista individual, teste de inglês, exame médico admissional, SUCESSO! Então, me pediram para aguardar ser chamada. Até hoje estaria aguardando, se uma quarta oportunidade (também um ano depois) não tivesse aparecido.1186158775_f

O jornalista anunciava no telejornal, eu estava numa dessas minhas estadias em São Paulo em busca de emprego, a chegada de uma nova Companhia Aérea, cujo fundador era meio malucão, despojado, um empreendedor diferente. A Companhia não tinha nome e havia um concurso nacional para a escolha do nome. Pensei em algum nome esdrúxulo, que graças a Deus agora não me recordo e pouparei a vocês esta vergonha alheia, e enviei. Também enviei o meu currículo. Fui chamada.

Fez seis anos. Aprendo todos os dias como ser uma profissional melhor e uma pessoa melhor. Como deu pra perceber não foi por mágica, não foi por indicação e não foi só porque sou um rostinho lindo com uma boca enorme! Foi ralação demais, muitos altos e baixos, tempestades e calmarias. E se você tá aqui me lendo, chegou até o final deste texto, pode ser que você precise de palavras de incentivo para sair do “limbo” que é aquele momento entre sua formatura na escola de comissários e a chamada de uma Cia para um processo seletivo. Então, aí vai: Eu sei o que é isso. Eu sei o que você tá passando, já senti na pele sua ansiedade, já vibrei ao receber um telefonema DDD 11 e já quis pular do prédio quando não pude atender. Eu sei que  isso é meio texto-de-autoajuda-de-banca-de-jornal, mas se eu consegui, você também pode chegar lá.

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Sobre Lídia Dourado

Uma Comissária apaixonada pelo que faz.

7 comments on “Seleção natural

  1. Lídia. Se eu li até o final sua história é porque me motivou e muito.
    Realmente, toda preparação, nosso suor na testa, borboletas na barriga, olhos voltados para o céu, checagem no email todo tempo, as vezes dificuldades até financeiramente, enfim, uma série de sentimentos tomando conta. Mas tudo por amor e vocação verdadeiro á profissão!
    Só quem passa por isso, sabe.
    Parabéns pela sua trajetória.
    Grande beijo e sucesso.

    • Bárbara, obrigada! Vc disse tudo e mais um pouco: “Só quem passa por isso, sabe”! E descreveu lindamente a sensação de um processo seletivo. É punk! Hahaha…
      Um beijo carinhoso, sucesso para nós!

  2. Meu Deus incrível este texto, amei e é uma verdadeira motivação a gente sempre pensa que tudo é fácil, mas não, temos que correr atrás parabéns linda você merece, correu atrás de todos os seus sonhos! Aposto que você é uma excelente Comissária o quão é escritora, muito sucesso!

  3. Lindo historia, impossível não se sentir motivada por ela. Abraços!

  4. Adorei!!!

  5. Lídia, você sempre sensacional! Mal comecei a ler o seu texto e me debulhei em lagrimas! Sua história realmente é inspiradora! E nos trazer em detalhes um pouquinho de tudo que você passou pra chegar onde chegou, é um estimulo para não desistirmos! Adorei sua historia….e a forma como você conta, faz tudo parecer tão mágico e tão real ao mesmo tempo! Parabéns!!!

  6. Muito bacana a sua história 😉

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