Voando sobre os livros

Opa! Uma turbulência! Após travar os trolleys, me sentava ligeira no meu Jump Seat (assento específico para tripulantes), que fica de frente para os 118 passageiros. Todos me olhavam com olhos imensos que buscavam na minha feição algum sinal de tranquilidade. Eu sorria. Olhava para janela e o pau tava comendo lá fora, nuvens, raios e trovões. Turbulência da boa! Sorria um sorriso meio amarelo, um pouco angustiado com o tempo que ia passando e eu não conseguia concluir meu serviço. Não sentia medo, sempre estive segura de que meus colegas lá na Cabine de Comando estão fazendo o melhor para desviar destas nuvens.

Ficava feliz, pois era esta a minha oportunidade de leitura. Tenho a capacidade impressionante de ler na turbulência. Lia, na época, “A língua de Eulália” de Marcos Bagno. Um livro sobre variação linguística. Já li módulos, manuscritos de trabalhos infindáveis e romances maravilhosos. Os madrugadões (voos na madrugada geralmente muito longos, tipo Campinas – Manaus) eram pratos cheios para estudar, fazia o tempo passar mais rápido. Minhas malas pesavam quilos a mais do que as das minhas colegas, com cadernos, livros e apostilas para o próximo fórum que se encerraria na Segunda Feira. Um erro grave, eu sempre deixava tudo para a última hora e tinha que ficar trancada no quarto de hotel nos pernoites, para não perder o prazo do trabalho de Literatura Brasileira ou Metodologia do Ensino. Muitas vezes, implorava um prazo maior de entrega do trabalho para a professora, alegando cansaço. Sincero. Genuíno. Às vezes, tinha sucesso. Outras vezes, repetia a matéria.

Em dias de prova, eu até conseguia folga, mas como fazia faculdade fora da minha base contratual, tinha que enfrentar os voos lotados para chegar na minha cidade. Muitas vezes, me sobrava viajar no Jump Seat da Cabine de Comando e muitos colegas já abriram mão de embarcar para que eu pudesse chegar a tempo para fazer a prova.

Foi assim que me formei em Letras com Inglês na Universidade Salvador – Unifacs. Durante as turbulências, taxiamentos longos e voos acima de duas horas de duração. Nos quartos de hotel, nas bordas das piscinas digitando longos relatórios de estágio, correndo nas folgas para assistir as aulas presenciais. Eu lia tudo o que podia no Jump mesmo, era minha escrivaninha, ergonomia passou longe! Fiz estágio na própria faculdade, muitas vezes ainda maquiada do voo. Embora todo esforço dispensado tenha sido custoso, valeu a pena. E eu não teria conseguido sem a ajuda dos meus colegas, professores e alunos. Da chefia e dos meus colegas tripulantes, da terapeuta que me ouvia chorar as pitangas e principalmente dos meus pais, que nos momentos em que eu pensava em desistir, me mantinham firme no propósito de me formar.

Não me sinto especial por isso. Tenho colegas que se formaram em cursos 100% presenciais, tenho colegas que são mães, voando. A minha mãe sempre me dizia: “Você não é a primeira, nem a última mulher a trabalhar e estudar ao mesmo tempo”. Só sei que é possível, porque consegui. Por que eu não desisti. E você? Vai encarar?

Compartilhar

Deixe uma resposta